Feche os olhos. Tudo está tão calmo, nada se move, nada existe. A Ópera do Silencio nasce independente, rebelde à vontade do compositor.
O primeiro ato é "A Rotina". A melhor sensação que jamais ousou desejar. A chama do espírito brilha opaca, mas confortável, leve. Tudo é simples, orgânico, sem esforço. A melodia te preenche como um cobertor numa manhã fria de inverno, em que o corpo rejeita qualquer menção velada de movimento. Provendo-lhe tal contentamento quanto a acordar antes do nascer do sol e dar-se conta que é domingo, deixando-se tragar novamente pelos lençóis.
Na sequência vem o segundo ato, "O Desprendimento". Nada importa. E por que deveria importar? Qual o propósito? O que é propósito? Essa reles "pré ocupação" de algo que ainda não existe e pode nunca existir se torna tão irrelevante, redundante, efêmera, que te dá prazer ao debochar, rindo de você mesmo por ocupar-se de tamanha perda de tempo. Tempo. O que define o tempo? Quem foi o primeiro a decretar sua existência e contar uma sequência de momentos cronologicamente? E para que fim? Fim. Que fim? Assim continua até o fim das respostas e a multiplicação das perguntas.
E quando perceber a infinidade destes questionamentos e finalmente se cansar, vem "A Inquietude". O mais dramático, cargo chefe da obra, que te tira o fôlego. Todo aquele silêncio começa a perturbar mais que deleitar, a impaciência suplanta o conforto, e você se dá conta que não existe nada mais sufocante que uma alma acomodada no silêncio, não existe nada mais perturbador que a sensação da perda da razão do ser, estar, existir. Sua mente percebe se afogar no próprio ego e luta para respirar, debatendo-se em um vácuo de semi-existência, porque mergulhou tão fundo no próprio silêncio que os urros da inquieta consciência são para você apenas um uivo distante, uma brisa sem identidade. Mas ela luta para ser ouvida, não vai conformar-se tão fácil com tal indiferença. Ela quer viver, mais que isso, quer existir. Ser mais que uma luz opaca no fundo de uma caverna. Ser novamente o pilar de chamas que alcançava os céus, ansiando pela grandeza, pela glória. E independente do tempo que leve, vai continuar lutando contra qualquer conformismo até alcançar a superfície. É inútil resistir.
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